Giros à Direita: Análises e perspectivas sobre o campo líbero-conservador

Organizadores:
FARIA, Fabiano Godinho
MARQUES, Mauro Luiz Barbosa

ISBN: 978-65-87429-04-5 (impresso)
ISBN: 978-65-87429-05-2 (e-book/pdf)
DOI: 10.35260/87429052-2020
Ano de publicação: 2020
254 páginas

Como citar:
ABNT: FARIA, Fabiano  Godinho; MARQUES, Mauro Luiz Barbosa (Org.). Giros à direita: análises e perspectivas sobre o campo líbero-conservador. Sobral-CE: Editora SertãoCult, 2020.

APA: Faria, F. G., Marques, M. L. B (Org.). Giros à direita: análises e perspectivas sobre o campo líbero-conservador. Sobral-CE: Editora SertãoCult, 2020. Doi:10.35260/87429052-2020.

Baixe o e-book aqui

APRESENTAÇÃO

Parece evidente um crescimento expressivo de correntes denominadas como “extrema direita”, entre outros termos, que chegaram ao poder em várias partes do mundo, desde a América, com EUA, Brasil e Colômbia, passando pela Europa, de Hungria e Polônia, chegando à Ásia, de Israel, Turquia e Índia, entre tantos outros Estados Nacionais. Especialmente após a crise econômica global de 2008, saídas por este viés socioeconômico tiveram seu grau de influência ampliado imensamente.

Tal fenômeno não demonstra ser efêmero, apesar de importantes dificuldades onde é aplicado na gestão estatal. Ainda que não reste clara a duração desse processo, ele merece toda atenção e problematização necessárias, pois traz às disputas políticas globais novos elementos nem sempre compreendidos, especialmente pela massa crítica progressista. Estes alinhamentos vinculados à direita extrema, via de regra, combinam de forma contraditória e complementar aspectos conservadores e ultraliberais, regados a práticas autoritárias de cunho neofascista. Em comum, tendem a rejeitar ou reagir a qualquer risco que coloque em xeque a ordem instituída, apesar de uma aparência difusa antissistêmica. Este avanço das direitas extremas pode ser um desdobramento do fracasso do neoliberalismo tradicional em promover a elevação geral do nível de vida pela instalação de uma sociedade de competição perfeita. Como os resultados foram o oposto, apostam numa guinada de ódio em que culpabilizam os setores política e socialmente mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, alternativas políticas ao modelo neoliberal tiveram inúmeras dificuldades e limites nas práticas políticas efetivas.

Desde suas origens, os conservadores são umbilicalmente ligados à defesa da tradição, da hierarquia e temem o “novo”. Historicamente ligam-se a uma ideia de alternativa global à modernidade, ao pensamento progressista e especialmente revolucionário, que reduziu o poder do chamado Antigo Regime europeu. Correntes liberais contribuíram em muito para tal virada histórica difundindo ideias sobre a possibilidade do indivíduo autônomo aperfeiçoar sua vida a partir de transformações baseadas na iniciativa, no progresso e na racionalidade. Curiosamente, liberais e conservadores se aproximaram em muitos sentidos, especialmente a partir da metade do século XIX. Mergulhar em tal problemática, também debatida aqui nesta obra, tem sua centralidade para entender tal processo político contemporâneo. Apenas o pragmatismo político explica tal aproximação?

Os elementos contemporâneos após 2008 carregam um cenário marcado pela decadência econômica e a busca da retomada da taxa de lucros do capital, a constante migração massiva em diversos pontos do planeta, especialmente no sentido “sul-norte”, o desemprego e precarizações extremas da força de trabalho. A falta de respostas de governos de diversas matizes distintas da extrema direita, entre outros fatores, se somam num caldeirão que permite a nova germinação de valores se não esquecidos, bastante minoritários no pós 2ª Guerra Mundial. Assim, neste momento em que o pêndulo político global se movimenta à direita, organizamos esta publicação e convidamos à sua leitura. É pretendido aqui discorrer sobre características, origens, concepções e práticas das “direitas”, em suas diversas matizes, priorizando a compreensão deste problema na contemporaneidade, mas debruçado na longa duração para a devida e aprofundada análise do tema.

Para tal objetivo, onze autores com seus respectivos artigos estão aqui elencados. Michael Löwy abre a série de capítulos desta obra discorrendo sobre a amplitude planetária da ação da direita extrema, dialogando com conceitos como fascismo, populismo e neofascismo, colocados à luz da prática política destes partidos e governos espalhados por inúmeros países. Ainda na perspectiva transnacional, fundamental ao tema, Hernán Ramírez traz a origem do neoliberalismo, especialmente no Cone Sul americano, e o relaciona com as engrenagens de sistemas autoritários praticados nos Estados da região e chega, temporalmente, a debater tal relação no tempo presente.

David M. Montenegro analisa a ascensão do governo Bolsonaro dialogando com o conceito de fascismo dependente pensado na longa duração, tendo como partida os regimes civis militares surgidos da década de 1960 em diante no espaço latino-americano e superando as variadas experiências de esquerda que assumiram o poder a partir do final do século passado. Na perspectiva do tempo presente, Rejane C. Hoeveler traz em seu capítulo um estudo sobre as múltiplas relações políticas, militares e empresariais entre as extremas-direitas latino-americanas, bem como suas conexões no último período, especialmente com a eleição de Jair Bolsonaro.

O capítulo escrito por Celina Lerner utiliza grafos que demonstram as relações entre mais de nove mil grupos no Facebook que formaram a rede libero-conservadora atuante nos últimos anos no Brasil. Uma impressionante radiografia deste instrumento utilizado pelos setores de direita com grande competência e ousadia neste período recente. Por sua vez, Fabiano Godinho Faria resgata a Doutrina da Guerra Revolucionária, uma espécie de “teoria da conspiração” importada do exército francês no final da década de 1950, que se tornou a alma da conspiração que derrubou João Goulart. No governo de Jair Bolsonaro, em pleno século XXI, essa mesma doutrina está sendo novamente resgatada das cinzas para justificar o renovado combate à ameaça do comunismo.

Navegando de forma comparativa entre os primeiros períodos republicanos de Brasil e Portugal, Felipe Cazetta retrata o embate do integralismo lusitano e brasileiro contra o liberalismo, as correntes socialistas bem como às formas democráticas, mesmo mínimas, de organização societal. No mesmo período histórico, Cícero João da Costa Filho analisa a trajetória intelectual de Gustavo Barroso, com destaque ao antissemitismo como elemento fundamental do projeto integralista do qual este intelectual nordestino ocupava a função de chefe da milícia. Nestes dois artigos, o integralismo é desnudado como importante corrente conservadora do início do século passado.

Fabio Gentile pensa em seu artigo configurações ideológicas e as organizações políticas da direita brasileira contemporânea. Traz e analisa a categoria de direita “plural”, destacando a tensão liberalismo-autoritarismo, algo presente na história do Brasil. Assim, o fenômeno da direita brasileira é pensado pelo autor numa perspectiva histórica e vinculado às tradições doutrinárias de longa duração. Por seu turno, Mauro Luiz B. Marques apresenta uma análise contextualizada da série distópica de imenso sucesso “O Conto da Aia”. Indo bem além do conteúdo da série em si, o autor relaciona a proposta ficcional distópica da autora com o cenário estadunidense, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, bem como desnuda aspectos centrais da doutrina ultraliberal e ultraconservadora daquele país.

Michelangelo Torres aborda uma análise crítica dos primeiros 18 meses da política educacional do governo de extrema direita no Brasil. O andamento da análise recai sobre as continuidades e descontinuidades da política educacional no governo Bolsonaro em relação a governos que o precederam. A hipótese é que há, por um lado, o intuito de uma consolidação ideológica de base conservadora que pretende impor, por viés autoritário, uma nova face à educação no País com requinte de perversidade e obscurantismo (apoiado no conservadorismo e em um grupo fundamentalista de extrema direita), no intuito de ceifar qualquer perspectiva de autonomia ou pensamento crítico.

Tais textos analisam as práticas políticas libero-conservadoras-autoritárias planetárias, com destaque ao cenário nacional. Esta coletividade de autores espera contribuir para o pensamento crítico, libertário e de resistência a um mundo em disputa e que, perigosamente, pode voltar a beirar o obscurantismo societal.

Os organizadores
Fabiano G. Faria & Mauro Luiz B. Marques

SUMÁRIO

Extrema direita e neofascismo: um fenômeno planetário: o caso Bolsonaro / 13
Michael Löwy
DOI: 10.35260/87429052p.13-19.2020

Neoliberalismo e (neo)autoritarismo: uma perspectiva de longo prazo a partir de casos do cone sul da América Latina / 20
Hernán Ramírez
DOI: 10.35260/87429052p.20-45.2020

Ultraliberalismo autoritário e o aprofundamento da dependência: o governo de extrema direita no Brasil no contexto da crise latino-americana / 46
David Moreno Montenegro
DOI: 10.35260/87429052p.46-70.2020

A reorganização da extrema direita latino-americana no ascenso bolsonarista: fóruns e redes organizativas / 71
Rejane Carolina Hoeveler
DOI: 10.35260/87429052p.71-89.2020

A direita unida em torno de Bolsonaro: uma análise da rede conservadora no Facebook / 90
Celina Lerner
DOI: 10.35260/87429052p.90-121.2020

Alguma coisa está fora do tempo: a doutrina da guerra revolucionária e o delírio anticomunista da família Bolsonaro / 122
Fabiano Godinho Faria
DOI: 10.35260/87429052p.122-158.2020

Um balanço crítico dos primeiros 18 meses da política educacional do governo Bolsonaro / 159
Michelangelo Torres
DOI: 10.35260/87429052p.159-173.2020

A revolução a partir da extrema direita: análises dos projetos da Ação Integralista Brasileira (AIB) e do Nacional Sindicalismo (N/S) / 174
Felipe Cazetta
DOI: 10.35260/87429052p.174-192.2020

Armas, literatura ‘panfletária’ e antissemitismo: a postura conservadora de Gustavo Barroso no Brasil dos anos 1930 / 193
Cícero João da Costa Filho
DOI: 10.35260/87429052p.193-221.2020

Uma direita “plural”: configurações ideológicas e organizações políticas da direita brasileira contemporânea / 222
Fábio Gentile
DOI: 10.35260/87429052p.222-240.2020

Um fantasma ronda o mundo, o fantasma de Gilead / 241
Mauro Luiz Barbosa Marques
DOI: 10.35260/87429052p.241-255.2020

CONTEÚDO EXTRA

A DIREITA UNIDA EM TORNO DE BOLSONARO: UMA ANÁLISE DA REDE CONSERVADORA NO FACEBOOK

Celina Lerner

Figura 1 – Rede antipetista de Curtida de Páginas, em 2014
Fonte: SANTOS JUNIOR, 2016
Figura 2 – Detalhe da Rede de Curtida de Páginas
Fonte: a autora
Figura 3 – Rede de Curtida de Páginas – geral
Fonte: a autora
Figura 4 – Detalhe da Rede de Curtida de Páginas com o nome das páginas
Fonte: a autora
Figura 5 – Localização na rede da Comunidade Conservadora Política
Fonte: a autora
Figura 6 – Comunidade Conservadora Política em detalhe
Fonte: a autora
Figura 7 – Localização na rede da Comunidade Política Institucional
Fonte: a autora
Figura 8 – Comunidade Política Institucional em detalhe
Fonte: a autora
Figura 9 – Localização na rede da Comunidade Monarquista
Fonte: a autora
Figura 10 – Comunidade Monarquista em detalhe
Fonte: a autora
Figura 11 – Localização na rede das comunidades de língua inglesa
Fonte: a autora
Figura 12 – Comunidade Conservadora Britânica em detalhe
Fonte: a autora
Figura 13 – Comunidades Conservadora Norte-Americana e Conservative Think Tanks
Fonte: a autora
Figura 14 – Localização na rede da Comunidade Israelense
Fonte: a autora
Figura 15 – Comunidade Israelense em detalhe
Fonte: a autora
Figura 16 – Localização na rede da Comunidade Protestante Histórica
Fonte: a autora
Figura 17 – Comunidade Protestante Histórica em detalhe
Fonte: a autora
Figura 18 – Localização na rede da Comunidade Mulheres & Cristianismo
Fonte: a autora
Figura 19 – Comunidade Mulheres & Cristianismo em detalhe
Fonte: a autora
Figura 20 – Demarcação das esferas da Rede Conservadora
Fonte: a autora

UM BALANÇO CRÍTICO DOS PRIMEIROS 18 MESES DA POLÍTICA EDUCACIONAL DO GOVERNO BOLSONARO

Michelangelo Torres