A terra prometida no sertão do Piauí: trajetórias de camponeses parceiros no Programa do Biodiesel

Autora:
SOARES, Elza

ISBN: 978-85-67960-37-1 (impresso)
ISBN: 978-85-67960-38-8 (e-book/pdf)
DOI: 110.35260/67960388-2020
Ano de publicação: 2020
208 páginas

Como citar:
ABNT: SILVA, Maria Elza Soares da. A terra prometida no sertão do Piauí: trajetórias de camponeses parceiros no Programa do Biodiesel. Sobral-CE: Editora SertãoCult, 2020.

APA: Silva, M. E. S. A terra prometida no sertão do Piauí: trajetórias de camponeses parceiros no Programa do Biodiesel. Sobral-CE: Editora SertãoCult, 2020.

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PREFÁCIO

Depois de realizar sua pesquisa de campo junto a camponeses/as parceiros/as e assentados/as da Fazenda Santa Clara, do município de Canto do Buriti, no sul do Piauí, Elza Soares, com suas qualidades de atenta e disciplinada pesquisadora, empreende com coragem e determinação a difícil tarefa de sistematização e interpretação dos dados, transformando-os em possíveis leituras da realidade a que se propôs estudar e desvendar.

As questões suscitadas pelo seu objeto de estudo foram inúmeras, algumas delas ficaram como chaves de leituras e ideias de pesquisas futuras, outras não menos importantes, perseguiram durante seu processo de construção, demarcando relações, campos específicos e processos sociais fundamentais na compreensão da trajetória dos sujeitos pesquisados e de si como pesquisadora.

A pesquisa etnográfica de Elza Soares considerou como questão central, de um lado, as formas desenvolvidas pelos camponeses quanto as trajetórias e suas estratégias de reprodução social, em situações de mudança ou transformações de suas relações socioculturais com a terra, o trabalho e moradia, e de outro, o contexto de conflitos ocasionado pela apropriação capitalista da terra e trabalho comandados por agentes governamentais e privados, responsáveis pela implantação do Programa Biodiesel na região Sul do estado, e as estratégias de recriação de autonomia camponesa.

Esta pesquisa, ora publicada na forma de livro, cumpre uma sugestão unânime dos membros da banca de defesa em 2011, a primeira dissertação apresentada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPI. O mérito acadêmico está fundamentado tanto no rigor da pesquisa, sua qualidade, quanto nas ricas descobertas feitas pela pesquisadora e, principalmente, a posição honesta frente ao material pesquisado. A originalidade temática marca singularmente esta investigação como importante contribuição para os estudos e pesquisas acadêmicas e o debate social no país.

Outro aspecto que merece destaque diz respeito à repercussão da desafiadora imersão a que a autora se viu envolvida no exercício da imaginação socioantropológica e da temática escolhida, que anos depois, a motivou a continuar e desenvolvê-la de forma mais ampla no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, consolidando em passos seguros sua trajetória acadêmica e intelectual.

Por estas razões, não é demais referendar o raro sucesso da empresa do conhecimento acadêmico na formação de jovens pesquisadores, e os não menos invisíveis benefícios sociais para a construção coletiva da autonomia e sustentabilidade dos chamados povos tradicionais, que enfrentaram e continuam enfrentando cotidianamente os desafios de serem o que são.

O livro de Elza Soares soma-se ao conjunto de outras obras das Ciências Sociais que discute as políticas de desenvolvimento rural, orientadas para os diversos tipos de produtores familiares e os consequentes impactos econômicos e sociais que estas obrigam a seus beneficiados redimensionar ou integrar seus sistemas produtivos junto às novas dinâmicas econômicas prevalentes no país hoje, ainda que para isso sejam forçados a comprometer o patrimônio sociocultural de saberes e de sua sobrevivência.

Portanto, o conhecimento e a transformação dessa realidade socioeconômica de que trata esta obra é importante para que possamos reorientar a construção dessas políticas públicas que possibilitem de fato, garantir, sobretudo,
a valorização das potencialidades desses agricultores, profusamente descritos por este trabalho etnográfico.

Ferdinand Cavalcante Pereira
Prof. Dr. em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

SUMÁRIO

Prefácio / 13
Introdução / 15
Aproximação com o tema / 15
Os caminhos cruzados de uma etnografia / 23
O ritual de escrever: a experiência de campo revisitada / 38

CAPÍTULO 1 – CAMPESINATO E O PROGRAMA DE CULTIVO DA MAMONA PARA O BIODIESEL NO PIAUÍ: PROMESSAS E EXPECTATIVAS / 43

1.1 Paisagem sócio-histórica / 43
1.2 Contrato de parceria na produção de mamona e a promessa de propriedade da terra: o que dizem a Empresa Brasil Ecodiesel e gestores públicos / 48
1.3 Contexto sócio-histórico: a sede antiga da Fazenda Caju Norte “[…] um ponto de partida ou de chegada para o biodiesel no Piauí” / 54
1.4 O núcleo da Fazenda Santa Clara – “aqui a gente coloca as novidades em dia” / 60

CAPÍTULO 2 – TRAJETÓRIAS QUE SE REPETEM: DO ESTRANHAMENTO À (RE) CONSTRUÇÃO DE REDES DE SOCIABILIDADE / 69

2.1 Trajetórias marcadas pela migração: uma estratégia de reprodução da família camponesa / 69
2.1.1 Família Souza, a busca de terra para os filhos / 79
2.1.2 Família Silva: uma migrante marcada pela dolorosa condição de ser mãe solteira… / 85
2.1.3 Família Costa: uma cidade com a cara de roça, com direito a terra, uma promessa! / 90
2.1.4 Família Macedo: de camponeses ocupantes a camponeses assentados: a luta pela terra “[…] coisa que gente da cidade não faz” / 92
2.1.5 Família Moura: “a terra está prometida, vamos ganhar!” / 100
2.2 (Re) construindo rede de sociabilidade: “entre parentes, compadres e vizinhos” / 105

CAPÍTULO 3 – RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS DOS/AS CAMPONESES/AS COM A TERRA, TRABALHO, (CONTRATO DE PARCERIA) E MORADIA: CONFLITOS E ESTRATÉGIAS DE REPRODUÇÃO SOCIAL / 115

3.1 Conflitos entre práticas culturais no roçado de antes e no lote de agora / 115
3.2 Dos “roçadinhos” aos “quintais produtivos” / 130
3.3 “Ser parceiro rural, agricultor familiar, trabalhador rural e assentado – tudo leva a gente a um único lugar: a terra” / 132
3.4 Controvérsias sobre a quebra de Contrato de Parceria Rural Agrícola – entre discursos, práticas, “sedução” e “armadilha” na conquista da terra prometida / 138
3.5 Células de produção: lugar de morada, dos roçadinhos e da (re) construção da autonomia relativa / 144

CAPÍTULO 4 – COTIDIANO DA FAMILIA CAMPONESA: RECRIAÇÃO DE ESPAÇOS DE INTERAÇÃO SOCIAL / 155

4.1 Conjunto familiar – “o projeto aqui foi pensado no trabalho da família com muita gente” / 155
4.2 A contribuição das mulheres na reprodução social da família / 159
4.3 O cotidiano de uma criança no assentamento – um dia com o menino Chicão e a menina Mariazinha / 166
4.4 A festa de aniversário – “a gente dá a festa, para dividir com as pessoas a fartura da família” / 173
4.5 Cemitérios – “a gente vela aqui e enterra na nossa terra […] de onde a gente veio” / 181
4.6 Capela Santa Clara – “O povo aqui prefere que as missas aconteçam no ‘centrinho’ de cada célula” / 183
4.7 Jovens do assentamento: “no trânsito de incertezas entre a cidade e a roça” / 184

CONCLUSÃO / 191
POSFÁCIO / 197
REFERÊNCIAS /201