Nas trilhas do sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará – volume 6

Organizadores:
ARAÚJO, Raimundo Alves de
SANTOS, Joaquim dos

ISBN: 978-65-87115-07-8 – e-book – pdf
ISBN: 978-65-87429-91-5 – e-book – pdf
ISBN: 978-65-87429-92-2 – papel
Doi: 10.35260/87429915-2021
Ano de publicação: 2021
258 páginas

Como citar:
ABNT: ARAÚJO, Raimundo Alves dos; SANTOS, Joaquim dos (Org.). Nas Trilhas do Sertão: Escritos de cultura e política nos interiores do Ceará. Sobral: Edições UVA; SertãoCult, 2021. doi: 10.35260/87429915-2021.

APA: Araújo, Raimundo Alves dos; Santos, Joaquim dos (Org.). Nas Trilhas do Sertão: Escritos de cultura e política nos interiores do Ceará. Sobral: Edições UVA; SertãoCult, 2021. doi: 10.35260/87429915-2021.

Clique aqui para baixar o e-book

APRESENTAÇÃO


O sertão, enquanto produção discursiva, fazia parte das definições espaciais portuguesas durante a expansão europeia. Sertão, ali, referia-se aos locais distantes do litoral, associado a uma baixa densidade demográfica. Ou seja, em um primeiro momento, o termo sertão aludia-se aos locais ainda não povoados ou colonizados pela empresa lusa; logo, espaços não “civilizados”, no sentido de que civilizar era adequar uma região à ordem colonizadora.

No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, com a formação do discurso nacionalista e de construção de uma identidade nacional, o termo foi sendo paulatinamente reelaborado pela literatura para adquirir um sentido de “identidade nacional”, uma espacialidade imaginada onde a originalidade da cultura “brasileira” estava mais preservada. Logo, a partir do conceito de sertão nascera a definição do sertanejo como o ente que corporificava as raízes da “pátria”. Como exemplo, a obra “O Sertanejo”, de José de Alencar, que compõe um sertão como um espaço do poder personificado no senso de justiça de Arnaldo e do Capitão-mor de milícia, Campelo.

Todavia, se entendermos “cultura popular” a partir da leitura de Michel de Certeau, ou seja, algo que só assume um caráter celebrativo e um discurso de exaltação ou de representação de uma identidade, depois de morto, enquanto prática e fazer social, partimos de um outro olhar. A celebração do “sertão” como espaço de originalidade do elemento nacional inicia-se, justamente, quando este sertão enquanto espaço distante, longe do poder do Estado, é fragilizado, uma vez que a “cultura popular”, nessa perspectiva “certeauniana”, só adquire uma função celebrativa depois de não mais existir enquanto forma de viver, pois somente o morto pode ser pacificado.

Essa interpretação nos ajuda a compreender porque o sertão só virou discurso identitário no século XIX. Até então, o interior da colônia lusa era um espaço da resistência à colonização, haja vista que o interior era para onde as populações nativas fugiam para escapar da ação colonizadora, ou onde se constituíam os quilombos de negros que rejeitavam à condição de escravo. Enquanto o conceito de sertão preservou essa função de espaço de resistência, onde o braço colonial pouco alcançava, este era visto de forma pejorativa, associado à barbárie, à desordem. Assim, o sertão era um antípoda à cidade. Se a cidade era a espacialidade da civilidade, da polidez e da polícia (um espaçamento do colonialismo epistemológico, de afirmação do domínio da ordem escravocrata), o sertão era o seu inverso oposto. O espaço mor de resistência e, como tal, devendo ser combatido e disciplinado a qualquer custo. Logo, se o sertão começa a ser celebrado como espacialidade da originalidade brasileira em fins dos oitocentos, é sintoma, antes, de sua queda do que de uma suposta vitalidade, uma vez que marca sua decadência enquanto espaço de resistência e a consolidação de sua subjugação ao colonialismo luso-brasileiro. Um colonialismo que não é só físico, mas linguístico e epistemológico. Um colonialismo que não se encerra no oitocentos, mas que se estende até a atualidade em seu processo de “nacionalização” dos sertões.

Sendo assim, enquanto campo de estudo, não cabe aos historiadores do sertão reafirmarem este discurso bucólico de um espaçamento antípoda à corrupção das cidades, mas compreender e identificar esse processo de mudança de sentidos e usos políticos do conceito de sertão na história, que reverbera necessariamente nas transformações das experiências vividas nesses espaços plurais, agora aglutinado, vulgarizado e romantizado na palavra “sertão”.

Assim, analisando e combatendo nos sertões, a presente coleção tem a honra de trazer ao público mais um livro da série “Nas Trilhas do Sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará”, em seu sexto volume. Já se vão quase oito anos desde o volume I (em 2014), e muita água já passou por debaixo dessa ponte desde então. Fazendo um esforço de olhar retroativo, diríamos que nossos objetivos iniciais foram atingidos no que foi possível. Se por um lado conseguimos produzir conhecimento driblando os gargalos e as limitações geográficas e de mercado, por outro, assim como qualquer outro esforço de produção de conhecimento em um espaço periférico do Brasil, o “Nas Trilhas do Sertão” depara-se com a precariedade de um mercado consumidor de livros de análise histórica, tanto pelas dificuldades financeiras da região, que se constitui simultaneamente como uma periferia ao grande capital e ao Brasil, bem como pela pouca familiaridade das populações de nossas cidades, com uma história que as analise enquanto objeto histórico, haja vista que, para a maioria destas populações, a História, com “H” maiúsculo, constitui-se como um ajuntamento de acontecimentos desenrolados no Sudeste e nas potências centrais do capitalismo. Logo, uma história “local” constitui-se nesse imaginário colonizado, em um exotismo que não vale a pena se gastar uma fração dos seus já parcos recursos. Tal especificidade faz com que, inevitavelmente, os livros sejam disponibilizados a preços, muitas vezes, abaixo do custo de sua produção. Sendo assim, os trabalhos aqui reunidos não se constituem em um empreendimento de mercado, por estar fora de sua lógica. O capital do “Nas Trilhas do Sertão” é outro. Seu capital é simbólico, e de composição de um campo de estudos no interior cearense nos domínios da História local/regional. Um “grito” da periferia para afirmar-se em toda a sua especificidade. Enquanto tal é também uma batalha pelo próprio sentido historiográfico de um espaço, em oposição ao colonialismo que nos quer “periféricos” e locais, em relação às grandes forças “nacionalizantes”.

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO / 5

1ª PARTE – MEMÓRIA E CULTURA NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XX E INÍCIO DO XXI

Nas trilhas do Cariri cearense: uma proposta extensionista com cinema africano / 15
Cicera Nunes
Thiago Florencio


“Essa história tem sentido?” Sensibilidades e télos na escrita da história de Sobral na obra de padre João Mendes Lira / 29
Thiago Braga Teles da Rocha
Francisco Dênis Melo

Tensões, intenções e interações: patrimônio cultural, turismo e romaria em Juazeiro do Norte / 41
José Italo Bezerra Viana

O ensino da história a partir do Cariri: o uso de conceitos e recursos didáticos / 57
Darlan de Oliveira Reis Junior
Ana Isabel Ribeiro P. Cortez Reis

Sonhar com os mortos / 73
Joaquim dos Santos

O Hospital Manuel de Abreu: lugar de cura e poder no pulmão do Cariri / 95
Francisco Egberto de Melo
Maria Isadora Leite Lima
José Roberto dos Santos Júnior


2ª PARTE – CIDADES DO SERTÃO CEARENSE NO SÉCULO XX

Verso e reverso de uma cidade: os pasquins e o “controle” do namoro / 117
Antonio Vitorino Farias Filho

“Imprensa Catholica e organização política são as nossas armas”. O jornal Correio da Semana e o discurso anticomunista. Sobral-CE (1930-1945 / 137
Carlos Augusto Pereira dos Santos

O Demônio do Pontal da Santa Cruz em Santana do Cariri-CE: memória e narrativa / 161
Nívia Luiz da Silva
Ana Cristina de Sales
Maria Arleilma Ferreira de Sousa

3ª PARTE – OS SERTÕES DO CEARÁ NOS PERÍODOS COLONIAL E IMPERIAL

“Dissipai a cruel peste, poderosa intercessora”: devoção mariana e epidemia do cólera no Cariri Oitocentista / 181
Paulo Henrique Fontes Cadena
Jucieldo Ferreira Alexandre

A política para pobres: recrutamentos, prisões e espancamentos no Ceará (1799-1837) / 203
Reginaldo Alves de Araújo

O sexo e a colonização dos sertões do Brasil (Séculos XVII e XVIII) / 227
Raimundo Alves de Araújo

Sobre os Autores / 253